Toda terça-feira minha filha de 5 anos traz para casa um livro de histórias diferente que a professora sorteia na classe.  Claramente ela ainda não foi alfabetizada e, portanto, não sabe ler sozinha o livro, mas é um objeto que ela deve cuidar com carinho e responsabilidade e que será lido para ela pelos pais. Acho interessante essa prática que estimula o hábito de leitura não só para a criança, mas para a família toda que acaba participando do ritual. E na semana seguinte as crianças comentam o que acharam do livro, se gostaram, quais foram as impressões e trocam de livro novamente. O objetivo é apenas compartilhar a experiência com os coleguinhas.

O livro desta semana era “Dove sono finite le uova di Pervinca?” e no final quem decidiu vir compartilhar a experiência aqui fui eu.

O livro conta a história de uma galinha chamada Pervinca que mora em um sítio. A galinha todo dia botava um ovo, mas o ovo sempre desaparecia. Pervinca perguntava para as outras galinhas se elas sabiam o que acontecia com o ovo e as outras galinhas respondiam apenas que os ovos delas também sumiam, mas elas não sabiam o que acontecia com eles. Um dia Pervinca resolveu investigar a história, pediu o suporte das colegas, mas ninguém deu muita bola para o assunto. Ela, no entanto, não desistiu: descobriu um cesto cheio de ovos em uma carroça e resolveu se esconder na carroça para descobrir o que faziam com os ovos. A carroça começou a seguir viagem e  ela logo se arrependeu de ter sido curiosa: o movimento da carroça era assustador! Ao se aproximar da cidade, com suas ruas e vielas estreitas, casas compridas que mal deixavam espaço para ver o céu, Pervinca, apavorada, já não queria mais saber o destino do ovo, só queria voltar para casa e então desceu da carroça. Só tinha um problema: ela não sabia mais o caminho de volta. Enquanto corria desesperada para procurar o caminho de casa ela acabou encontrando uma loja com uma vitrina repleta de ovos coloridos e decidiu entrar na loja. Lá dentro ela viu um monte de galinhas coloridas e ovos maravilhosos e ficou encantada, mas como os humanos faziam a maior confusão dentro da loja, ela acabou se escondendo embaixo de uma mesa. Só quando as luzes se apagaram e a loja fechou ela saiu do esconderijo, escolheu uma cesta cheia de ovos e resolveu chocá-los para ver se nascia algum pintinho. Na manhã seguinte: desastre! Os ovos estavam amassados, dentro deles não tinha nenhum pintinho, só um creme de aroma doce e agradável, mas muito diferente do que tinha no sítio. Foi então que ela chegou a conclusão que os ovos – de chocolate – eram falsos, bem como as galinhas da loja que não eram de verdade como ela. Assim que a porta da loja abriu novamente e ela conseguiu sair, ela voltou a procurar o caminho de casa. Nisso notou um galo no alto de uma torre e subiu até o alto da torre para perguntar se ele sabia o caminho de retorno. Mas o galo também não era de verdade, era um galo de ferro. Quando ela já estava prestes a perder as esperanças… aleluia: ela olhou ao redor e lá do alto da torre ela conseguiu avistar o sítio e descobriu o caminho de volta para casa. Fim da história.

Quando terminei a leitura do livro, minha caçula de 3 anos, perguntou: “mamãe, a galinha era birbona?”. A palavra birbona poderia ser traduzida como malandrinha, tem uma conotação um pouco negativa como quem faz algo que não deve fazer. Eu respondi que não, que a galinha era apenas curiosa.

Mas fiquei com a história da galinha na cabeça. Por uma série de motivos. O primeiro pensamento foi: “será que é certo colocar o medo assim nas crianças desde pequenas?” O livro dá a impressão que a galinha nunca devia ter tido a ousadia de ser curiosa, de querer saber, de investigar. A galinha devia ter ficado no seu lugar, tranquila e não teria sofrido. E aí pensei o quanto pode ser difícil sair da área de conforto, arriscar, pensei em todos os brasileiros que deixam suas cidades, alguns com vida bastante confortável, em busca do novo aqui na Italia. Assim como Pervinca, muitas vezes o motivo da viagem é a curiosidade, saber como é, tentar um novo caminho. E esse caminho muitas vezes é sofrido, apavorante, cheio de desafios. Quantos brasileiros que conheci passaram a maior parte do tempo na Italia simplesmente tentando voltar para casa… mas quantos outros construíram vidas memoráveis, em lares repletos de amor, fizeram amigos verdadeiros, conseguiram construir uma carreira invejável?

E fiquei pensando como muitas vezes nós, brasileiros que moramos há muito tempo na Italia, temos a tendência de dizer para quem quer vir: “prepare-se, é difícil e bla bla”.E realmente é difícil mesmo! Mas não é esse o ponto deste artigo.

O que ficou na minha cabeça é a questão da educação: será que a história do livro fará diferença na vida da minha filha, na construção da sua personalidade?

Será que receber mensagens de outros brasileiros dizendo que  a vida na Italia será difícil evita que alguém realmente venha para a Italia?

E então lembrei de um video do Marco Montemagno que adoro e compartilho abaixo com vocês.

A propósito: viver na Itália não é fácil. Mas acho que viver – com todo o seu significado – não é fácil em lugar nenhum, não é mesmo?

4 COMENTÁRIOS

  1. Oi Bárbara! Adoro suas postagens.
    Meu sonho de ir pra Itália começou por volta do ano 2001. Tirei minha cidadania e – 17 anos depois – lá vamos nós! Não sei se é medo… talvez comodismo… talvez preguiça de recomeçar… Eu nunca tive. O máximo que pode acontecer é dar errado! E aí a gente recomeça. Simples! Quem nunca perdeu um emprego, terminou um relacionamento? É só chacoalhar a poeira e dar a volta por cima, uai! ?
    Fim de fevereiro tô chegando por aí!

  2. presado amigo(a) notadamente este é um site que deveria ter notificações de trabalhos sou brasileiro descendente de italianos que não tem como conseguir a cidadania italiana por dois motivos meu sobrenome italiano tem uma letra alterada e existe uma dificuldade de eu conseguir minha cidadania pq minha mãe é a beneficiária direta só que ela é de 1947 quando a Itália ainda tinha regime monarca vindo assim a república a partir de 1948 dois problemas sendo assim fica difícil passar primeiro por cima dela depois terei de entrar com um processo pra conseguir minha cidadania terceiro gasta-se muito dinheiro que no momento não disponho teria de sair do Brasil trabalhar na Itália juntar dinheiro para mecher com tudo isso me alegrei quando achei este site no meu entendimento encontraria uma maneira um trabalho que não exigiria documentos europeu pelo que vejo me enganei uma vez que de nada me adiantou esse site

  3. @Paula
    Oi Paula, boa sorte na sua nova vida na Italia. É isso aí, bola para frente e vamos que vamos!

    @Gelcimar
    Sinto muito desiludi-lo. Continue procurando na net, quem sabe você acha em outro site o que está procurando. Se não achar pode criar o seu site e compartilhar as informações preciosas que achar. Boa sorte!

    @Alberto
    Obrigada 😉

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