Para mim morar na Itália foi uma escolha: em 2005 resolvi fazer as malas e sair do Brasil para morar em Florença. Na época tinha 24 anos, era formada em jornalismo, trabalhava em uma assessoria de imprensa da onde pedi demissão. Vivia com a família, com quem tinha uma boa relação. Tinha muitos amigos e uma vida confortável. Mesmo assim resolvi experimentar uma nova vida e vim para a Itália com o único objetivo de reconhecer a minha cidadania italiana. Acabei ficando. Com o passar dos anos tive diversas fases e escrevi diversos textos a respeito. Neste artigo faço uma reflexão sobre onde se vive melhor depois de 20 anos morando na Itália.
Índice
As fases da vida de uma brasileira na Itália
Minha primeira reflexão sobre a vida na Itália eu publiquei em 2008, após 3 anos morando em Florença. Na época escrevi: “Sim, vale a pena largar a vida no Brasil. (…) tenho certeza que você sairá mais rico. Não necessariamente pela conta bancaria, mas como pessoa. Aprenderá a dar valor para coisas que considerava “normais” e “certas”, que na verdade não eram nem tão normais e nem tão certas.”
Em 2010, após 5 anos de Itália, escrevi um novo artigo, me contradizendo. Naquele período eu pensava: “Ninguém precisa atravessar oceanos para descobrir o seu ‘eu’. Isso depende das diversas fases da vida e você pode tranquilamente fazer a mesma coisa na sua cidade natal ou onde quer que esteja. Não é necessário vir para a Italia. Recomeçar do zero requer muito esforço, muito mais esforço do que o necessário para quem já mora em uma realidade conhecida.”
Acho que só voltei a escrever de novo sobre o tema em 2020, depois de 15 anos na Itália. Neste ano publiquei o artigo O que eu mais gosto e o que eu menos gosto da Italia (depois de 15 anos morando na Toscana), onde basicamente dizia que “as coisas que eu mais gosto da Italia coincidem com as que eu menos gosto” e fiz um elenco de pontos positivos e negativos relacionados a trabalho, saúde, condições climáticas, gastronomia e idade da população.
Agora em 2025 eu completei 20 anos de Itália e já estava na hora de escrever um novo artigo com a minha reflexão do momento. Tenho certeza que mudarei de opinião ainda muitas vezes. Ou mais do que isso. As opiniões se somam, porque dependem da fase da vida, da situação. E uma coisa que a gente aprende crescendo é que não dá para ter tudo. Cada escolha, implica uma perda. Talvez por isso algumas pessoas tenham tanta dificuldade em escolher. Mas vamos lá.
A importância de saber escolher o país onde viver
Tem uma frase atribuída ao Warren Buffet que diz “Não importa quão grande seja o talento e o esforço, mas em qual barco você está“.
Em outras palavras: diz que o mais importante é saber escolher o barco certo porque independente do seu esforço, o barco certo vai sempre dar melhor resultado.
Para explicar mais claramente: você pode trabalhar duramente em uma startup. Se escolher a startup certa pode ser que daqui a 10 anos você se encontre em uma Apple, Airbnb, Nvidia e tenha um futuro brilhante, próspero e promissor. Se escolher a startup errada, pode ser que daqui a 10 anos ela não exista mais, ou simplesmente sobreviva com dificuldades.
Aqui o fato decisivo é a escolha do barco. Você pode trabalhar 12 horas em uma startup de sucesso ou de fracasso. O resultado vem do ambiente onde você se encontra.
Com isso quero dizer que a escolha do país onde a gente vai morar tem um grande impacto na nossa qualidade de vida do futuro e da nossa família.
Vamos imaginar que em 1970 você estivesse se mudado para Singapura. Naquela época o país vivia uma fase de economia pobre, com um PIB per capita de US$ 926 (fonte: World Bank). Em 2024 o país se tornou uma potência global com S$ 90.674 (nominal), representando um crescimento de mais de 97 vezes em termos nominais ajustados pela inflação e população.
Também positivo foi o crescimento de quem estava na Coreia do Sul: o país passou de uma economia destruída pela Guerra da Coreia, com PIB per capita de US$ 279 em 1970 (fonte: World Bank), para US$ 36.488,9 em 2025 (nominal – fonte: Wikipedia), um aumento de mais de 128 vezes, impulsionado pelo “Milagre do Rio Han” via industrialização exportadora e planejamento estatal sob Park Chung-hee.
Já os Estados Unidos passou de um PIB per capita nominal em torno de US$ 5.1 mil em 1970 para cerca de US$ 66.7 mil em 2024 (World Bank), mantendo-se entre as economias mais ricas do mundo, embora com fases bem distintas de crescimento
E o que aconteceu com o Brasil neste período? E com a Itália?

O Brasil desde 1970
O Brasil experimentou crescimento inicial no “Milagre Econômico” militar (1968-1973), com PIB per capita saltando de US$ 419 em 1970 para US$ 2.471 em 1980 (World Bank), mas estagnou nas décadas seguintes devido a crises de dívida externa, hiperinflação e políticas inconsistentes, atingindo apenas US$ 9.565 em 2024.
| Ano | PIB per Capita (US$, nominal) | Fonte |
|---|---|---|
| 1970 | 443,80 | World Bank |
| 1980 | 1.958,60 | World Bank |
| 1990 | 2.581,10 | World Bank |
| 2024 | 9.564,58 | Trading Economics |
A Italia desde 1970
Itália viu seu PIB per capita nominal crescer de US$ 2.100 em 1970 para US$ 35.657 em 2024 (World Bank), um aumento de cerca de 17 vezes, mas com estagnação crônica desde os anos 1990 devido a rigidez trabalhista, dívida pública alta e baixa produtividade.
| Ano | PIB per Capita (US$, nominal) | Fonte |
|---|---|---|
| 1970 | 2.111,70 | World Bank |
| 1980 | 8.476,40 | World Bank |
| 1990 | 20.873,80 | World Bank |
| 2024 | 40.226,00 | World Bank |
A qualidade de vida média Brasil x Itália
Antes de entrar no meu ponto de vista pessoal, resolvi pesquisar mais alguns números para comparar – o mais objetivamente possível – a diferença entre qualidade de vida no Brasil e Itália.
Renda, pobreza e desigualdade
- Em 2023–2024, o PIB per capita nominal ficou em cerca de US$ 37 mil na Itália e cerca de US$ 9,5 mil no Brasil; mesmo em paridade de poder de compra (PPP), italianos ainda têm renda média sensivelmente maior
- A taxa de pobreza e a desigualdade (medidas pelo índice de Gini) são bem mais altas no Brasil, com grande parte da população em empregos informais, enquanto a Itália tem rede de proteção social e mercado de trabalho formal mais abrangentes, apesar do desemprego juvenil elevado.
Saúde, expectativa de vida e serviços públicos
- Expectativa de vida: Itália em torno de 82–83 anos, Brasil cerca de 75–76 anos no período pós?pandemia, refletindo melhor sistema de saúde, dieta e segurança no trânsito na Itália.
- A Itália oferece sistema de saúde universal (Servizio Sanitario Nazionale) com acesso amplo e bom desempenho em indicadores de mortalidade, enquanto o Brasil tem o SUS, também universal, mas com maiores desigualdades regionais, filas e carências de infraestrutura.
Segurança e ambiente urbano
- Taxas de homicídio são significativamente menores na Itália (0,57 por 100 mil habitantes em 2023) do que no Brasil ( 21,2 por 100 mil em 2023), o que pesa muito na percepção de segurança cotidiana.
- Cidades italianas tendem a ter melhor infraestrutura urbana média (transporte público, saneamento, preservação de centros históricos), enquanto no Brasil a qualidade varia muito entre grandes capitais e periferias com acesso precário a serviços básicos.
Em toda a Itália, em 2024 ocorreram 327 homicídios (-2,1% em relação a 2023): 116 mulheres e 211 homens. No caso das mulheres, trata?se de homicídios com todos os autores identificados, homens em 92,2% dos casos. Os homens são mortos por outros homens em 85,7% dos casos com autor identificado (156 de 182).
As vítimas são em sua maioria cidadãos italianos (74,3%); entre as mulheres, a proporção de vítimas italianas é ainda maior (78,4%). Entre as mulheres italianas, 93,4% são mortas por italianos; entre as estrangeiras, 48,0% são mortas por compatriotas.
Sessenta e duas mulheres foram mortas por um parceiro ou ex-parceiro, quase todos (61) são homens. Fonte: Istat
Em todo o Brasil, em 2023 temos a menor taxa de homicídio de todos os tempos segundo o site do Governo Brasileiro: 45.747 mortes.
Bem-estar subjetivo e qualidade geral
- Rankings internacionais de “melhores países” e índices de reputação colocam a Itália consistentemente à frente do Brasil em qualidade de vida geral, infraestrutura e serviços públicos, embora o Brasil seja bem avaliado em clima, sociabilidade e alegria de viver.
- Em compensação, o custo de vida e a carga tributária na Itália são mais altos, e o crescimento econômico é baixo; no Brasil, quem está na faixa de renda média/alta pode ter acesso a serviços privados (saúde, educação) que melhoram bastante o padrão individual, apesar do ambiente público mais difícil.
Carga Tributária Brasil x Itália
A carga tributária da Itália é claramente mais alta que a do Brasil, mas o “peso sentido” pelos contribuintes brasileiros é grande porque a estrutura de impostos é mais regressiva e os serviços recebidos são piores.
| País (2023) | Carga tributária total (% do PIB) | Fonte |
|---|---|---|
| Brasil | ~32,0% do PIB | OECD LAC |
| Itália | 42,8% do PIB | OECD Revenue Statistics |
- Brasil arrecada algo próximo da média da OCDE (cerca de 34% do PIB), bem acima da média da América Latina (~22%), mas abaixo da Itália.?
- Itália está entre as maiores cargas tributárias do mundo, no topo da OCDE, com quase 43% do PIB em impostos e contribuições.
Estrutura dos impostos
- Brasil: grande peso em tributos sobre consumo (ICMS, PIS/Cofins, ISS), que representam quase metade da arrecadação e fazem pobres pagarem, proporcionalmente, mais que ricos; impostos diretos sobre renda e patrimônio têm participação relativamente baixa.
- Itália: parcela maior vem de imposto de renda das pessoas físicas (IRPEF), contribuições sociais e tributos sobre propriedade, aproximando-se do padrão típico de países europeus; ainda assim, também há IVA alto.
Efeito prático para o cidadão médio
- No Brasil, mesmo com carga agregada menor, o contribuinte sente forte peso em preços (alta tributação embutida em bens e serviços) e recebe serviços públicos aquém do padrão europeu (saúde, transporte, segurança, educação)
- Na Itália, a carga é maior, mas há contrapartidas mais visíveis: saúde universal de melhor qualidade, maior proteção social, infraestrutura e serviços públicos mais estáveis, embora a sensação de “impostos altos demais” também seja comum.
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O imaginário coletivo
Quando nos apresentamos a um habitante de um país diferente, levamos com a gente sempre a imagem do nosso país natal.
A imagem do povo brasileiro no exterior
Quando falamos que somos brasileiros levamos com a gente a imagem de um povo “simpático e caloroso”, de um povo que “sabe criar música, dançar, jogar futebol”.
Mas ao mesmo tempo, em outros setores, os italianos vêem os brasileiros como um povo pouco preparado.
Você pode ser um engenheiro requisitado no Brasil, mas o Brasil não tem a reputação de um povo que constrói. Então se você se apresentar para um italiano, por exemplo, ele sempre vai achar que a sua engenharia não é tão boa quanto a engenharia italiana. Verdade? Mentira? Preconceito ou realidade. Não estou aqui para entrar nessas questões.
Se este mesmo engenheiro conseguir comprovar para um italiano que ele é super competente e entende do que ele está falando vão dizer para ele: “ah, você não é brasileiro…”
O imaginário coletivo sobre a Itália
Da mesma forma, os italianos tem no imaginário coletivo a imagem do povo da moda, da gastronomia, dos carros e motos (Ferrari, Lamborghini, Maserati, Alfa Romeo, Fiat, Ducati, etc).
Itália também tem uma ótima reputação na construção naval e engenharia: Estaleiros italianos como Fincantieri estão entre os maiores construtores de navios de cruzeiro e militares do mundo, fornecendo embarcações para diversas marinhas e companhias de cruzeiro.
No segmento de iates e superiates, grupos como Ferretti (Riva, Ferretti Yachts, Pershing), Azimut-Benetti e Sanlorenzo fazem da Itália líder global em número de embarcações de luxo produzidas, reforçando a reputação de design e acabamento premium.
A vela de competição tem destaque, com equipes italianas como Luna Rossa Prada Pirelli participando da America’s Cup e ajudando a projetar a imagem de alta tecnologia aplicada a barcos de regata.
Tudo isso provavelmente vem de um passado distante: cidades-estado como Veneza, Gênova, Pisa e Amalfi foram potências navais e comerciais do Mediterrâneo entre a Idade Média e o Renascimento, com grandes frotas mercantes e militares
Também não dá para esquecer dos grandes navegadores da era dos descobrimentos, como Cristóvão Colombo (Gênova) e Giovanni Caboto (John Cabot), eram italianos a serviço de outras coroas europeias, mostrando a tradição de conhecimento náutico.
Mas enfim, nem tudo são flores. A Itália está querendo deixar para trás a imagem negativa. Persistem clichês de “mafia”, corrupção, atraso administrativo e de um povo que trabalha pouco, chega atrasado e é caótico no trânsito, alimentados por filmes e mídia. Verdade? Mentira? Preconceito ou realidade.
Vale mais a pena morar no Brasil ou na Itália
Depende muito de quem você é, de quanto ganha, da sua profissão e do momento de vida em que está. Em vez de procurar uma resposta “certa”, o objetivo aqui é te ajudar a enxergar o pacote completo de cada país para decidir com mais consciência.
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Brasil x Itália em pontos práticos
De forma bem geral, olhando a média dos últimos anos:
- Renda e custo de vida: trabalhar na Itália costuma significar ganhar em euro e ter um poder de compra maior em itens básicos (aluguel em cidades médias, supermercado, transporte público). Já no Brasil, o custo de vida varia muito entre regiões e a renda média é bem menor, mas alguns serviços podem sair mais baratos, principalmente se você já tem rede de apoio (moradia própria, família por perto).
- Segurança: aqui quase sempre a balança pende para a Itália. A taxa de homicídio e de crimes violentos é muito menor, o que muda coisas simples do dia a dia: andar a pé à noite, usar transporte público, deixar crianças mais livres na rua.
- Serviços públicos: a Itália oferece saúde universal com qualidade média melhor e escolas públicas que, em muitas cidades, funcionam bem. No Brasil, o SUS e a escola pública são muito desiguais: podem ser bons em alguns lugares, bem precários em outros, o que empurra muita gente para planos de saúde e escolas privadas.
- Burocracia e trabalho: a burocracia existe nos dois países, mas assume formas diferentes. No Brasil, abrir empresa pode ser demorado, mas o mercado é mais flexível; na Itália, os direitos trabalhistas são fortes, porém o mercado é mais fechado e formal, exigindo idioma e, muitas vezes, reconhecimento de diploma.
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Para quem a Itália costuma valer mais
De forma bem resumida, a Itália tende a ser uma escolha melhor quando:
- Você tem cidadania europeia ou permissão de residência estável, o que evita boa parte do estresse com vistos e burocracia.
- Você tem renda em euro ou em dólar (remota, aposentadoria, investimentos) e não depende imediatamente de arrumar qualquer emprego logo que chegar.
- Sua profissão tem demanda real na Itália e você está disposto a estudar o idioma com seriedade, reconhecer diploma, fazer cursos complementares e recomeçar alguns degraus abaixo do que tinha no Brasil.
- Segurança, estabilidade, serviços públicos funcionais e um ambiente mais previsível pesam mais para você do que clima, proximidade da família e flexibilidade típica do Brasil.
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Quando pode fazer mais sentido ficar no Brasil
Por outro lado, ficar no Brasil (ou adiar a mudança) costuma fazer mais sentido se:
- Sua renda provável na Itália seria de subempregos por muito tempo (faxina, entrega, cozinha, etc.) e você perderia padrão de vida em relação ao que já tem hoje.
- Você tem uma boa rede de apoio no Brasil (família próxima, casa própria, negócio estabelecido, escola boa para os filhos) que seria perdida ao migrar.
- Você não está disposto, na prática, a passar por 1–2 anos de adaptação pesada: aprender italiano, lidar com solidão, frio, distância da família e um mercado de trabalho mais rígido.
- Seu momento de vida (por exemplo, filhos adolescentes, pais idosos dependendo de você) torna a mudança um custo emocional muito mais alto do que o possível ganho material.
Perguntas para você responder antes de decidir
Em vez de procurar uma resposta genérica, vale sentar e responder, com números e sinceridade, perguntas como:
- “Se eu vier para a Itália, vou melhorar, piorar ou só trocar de tipo de problema em relação à vida que tenho hoje no Brasil?
- “Minha profissão, do jeito que está hoje, tem espaço real no mercado italiano ou eu provavelmente vou precisar mudar de área para me sustentar?”
- “Estou realmente disposto a estudar italiano todo dia, por pelo menos 1 ano, até conseguir trabalhar bem na área que desejo?”
- “Qual seria minha renda líquida provável no Brasil e na Itália, hoje, por mês, depois de impostos?”
- “Quais serviços eu vou precisar pagar no Brasil (plano de saúde, escola, segurança, transporte) e quais a Itália já oferece via sistema público? E se decidisse pagar o privado, quanto gastaria?”
- “Quais laços eu estaria deixando para trás (pais, filhos, parceiro, amigos, negócio próprio) e quanto isso realmente pesa para mim no dia a dia?”
- “Que tipo de vida eu imagino para daqui a 10 anos e em qual dos dois países essa vida parece mais viável – não só financeiramente, mas também em rotina, segurança e saúde mental?”
Espero que o artigo possa ser útil para você que está pensando em mudar para a Itália. Quem tiver outras dicas ou experiências para acrescentar, deixe um comentário no final da página! 🙂 Sucesso para os seus projetos!


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