Você sabia que pobreza na Itália existe? E nem sempre depende de falta de trabalho

Ter um trabalho na Itália já não é, para muitas pessoas, uma garantia de proteção contra a pobreza. Um levantamento da Caritas Italiana mostrou que uma em cada quatro pessoas atendidas pelos centros de escuta da entidade tem uma ocupação, mas mesmo assim precisa de ajuda para enfrentar dificuldades econômicas, habitacionais, familiares ou de saúde.

Os dados foram apresentados no Report statistico nazionale 2026 da Caritas Italiana e divulgados em reportagem publicada pelo jornal La Repubblica, assinada pela jornalista Valentina Conte.

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Segundo o levantamento, em 2025 a rede dos centros de escuta acompanhou 282.539 pessoas, o número mais alto já registrado. Em relação ao ano anterior, o aumento foi de 1,7%, mas, em dez anos, o crescimento chegou a 48%.

A frase usada por don Marco Pagniello, diretor da Caritas Italiana, resume bem o quadro: “Sempre mais pobres, sempre por mais tempo”. A pobreza, portanto, não aparece mais apenas como uma emergência temporária, mas como uma condição que pode se prolongar durante anos.

O trabalho na Itália nem sempre paga o suficiente para garantir uma vida digna

Entre as pessoas ajudadas pela Caritas, 24% trabalham. Dez anos antes, esse percentual era de 13,3%. O dado é importante porque mostra o avanço dos chamados working poor, ou seja, trabalhadores que, mesmo tendo um emprego, não conseguem manter um padrão mínimo de vida.

Você sabia que pobreza na Itália existe? E nem sempre depende de falta de trabalho

No Brasil a gente se “acostumou” a ver pessoas que trabalham, mas ganham tão pouco que não é suficiente para uma qualidade de vida digna. Mas aqui na Itália, em pleno século XXI, isso é novidade.

De acordo com o relatório da Caritas, o fenômeno da necessidade de ajuda está piorando para as pessoas em idade produtiva. Entre os assistidos de 35 a 44 anos, 31,7% trabalham. Entre aqueles de 45 a 54 anos, o percentual é de 31%. A Caritas relaciona esse crescimento a salários baixos, empregos descontínuos, precariedade, contratos frágeis e part-time involuntário.

Na prática, isso significa que ter um contrato de trabalho na Itália não resolve automaticamente o problema da pobreza. Para quem está pensando em morar ou trabalhar no país, é um alerta importante: não basta olhar apenas para a existência de uma vaga. É preciso considerar salário líquido, custo do aluguel, contas domésticas, transporte, saúde, estabilidade do contrato e possibilidade real de crescimento profissional.

O relatório também mostra que a pobreza tende a durar mais. Os chamados “novos pobres” caíram para 37,6% dos assistidos, mas aumentou a parcela de pessoas acompanhadas pela Caritas há pelo menos cinco anos: 28,1%, o valor mais alto desde 2019. O número médio de encontros anuais por pessoa também subiu para 8,7, mais que o dobro do registrado em 2012.

Famílias, idosos e pessoas sozinhas estão entre os grupos mais frágeis

As famílias com menores de idade continuam sendo o principal grupo que pede ajuda. Segundo os dados divulgados, elas representam 52% do total, cerca de 147 mil núcleos familiares. Isso significa que há pelo menos um número equivalente de crianças e adolescentes vivendo em situação de restrição econômica.

Esse é um dos pontos mais preocupantes, porque a pobreza não afeta apenas o presente. Quando uma família não consegue pagar adequadamente aluguel, alimentação, contas, material escolar ou cuidados de saúde, aumenta também o risco de que as crianças cresçam com menos oportunidades. A pobreza, nesse caso, pode ser transmitida de uma geração para outra.

Outro dado forte é o crescimento da pobreza entre idosos. As pessoas com mais de 65 anos representam 15,4% dos assistidos pela Caritas, contra 7,7% dez anos antes. Em números absolutos, o aumento foi de 191%, muito acima do crescimento geral da base de pessoas atendidas. Entre os italianos acompanhados pela entidade, a participação dos idosos chega a 26,3%.

A Caritas associa esse cenário a aposentadorias insuficientes, problemas de saúde, dificuldade para manter a moradia, enfraquecimento das redes familiares e isolamento social.

É um ponto que ajuda a entender por que a pobreza na Itália não atinge apenas imigrantes ou pessoas sem trabalho. Ela também alcança aposentados, famílias locais e pessoas que, em teoria, já deveriam estar protegidas pelo sistema.

A solidão também aparece como um fator relevante. Quase uma em cada três pessoas assistidas vive sozinha, 32,9% do total. Em 2015, eram 23,8%. Em dez anos, esse grupo aumentou 74,9%. Segundo a Caritas, a solidão muitas vezes está ligada a separações, lutos, rupturas familiares e perda de redes de apoio. Entre as pessoas sozinhas, quase seis em cada dez acumulam mais de uma forma de fragilidade.

Casa, saúde e custo de vida ampliam a vulnerabilidade

A moradia continua sendo um dos grandes pontos críticos. A vulnerabilidade habitacional atinge 34,9% das pessoas acompanhadas. Dentro desse grupo, 23,1% vivem uma condição de grave exclusão habitacional, enquanto 11,8% têm dificuldade para pagar aluguel, contas e despesas domésticas.

Em 2025, a Caritas encontrou mais de 24 mil pessoas sem casa ou sem teto. Mas o problema não se limita a quem está na rua. Também cresce a dificuldade de quem ainda tem uma casa, mas corre o risco de perdê-la porque não consegue mais arcar com os custos.

A saúde é outro elemento que agrava a pobreza. Em 2025, 16,1% dos assistidos, mais de 44 mil pessoas, apresentavam fragilidades sanitárias ligadas a doenças crônicas, deficiência, saúde mental ou condições agravadas pela pobreza. Em dez anos, as fragilidades sanitárias cresceram 69,4%, enquanto os pedidos ligados a deficiência e handicap aumentaram 102,6%.

O relatório mostra também que a pobreza está se alargando para famílias que têm algum recurso, mas não o suficiente para enfrentar o custo de vida.

O ISEE médio dos assistidos passou de 4.315 para 4.974 euros. A Caritas ressalta, porém, que isso não indica melhora econômica. Ao contrário: mostra que a dificuldade chegou também a famílias que não estão entre os casos mais extremos, mas foram pressionadas por aluguel, contas, despesas médicas, salários baixos e inflação.

As novas medidas de combate à pobreza chegam a menos pessoas

O relatório da Caritas também traz um dado relevante sobre as medidas públicas de apoio. Entre os assistidos, 14,6% recebem o Assegno di inclusione. Somando o 1% de pessoas que recebem o Supporto per la formazione e il lavoro, o total chega a 15,6%.

O percentual cresceu em relação a 2024, mas continua abaixo dos níveis alcançados pelo antigo Reddito di cittadinanza. Em 2021, 22,3% dos usuários da Caritas recebiam o benefício. Depois das mudanças introduzidas pelo governo Meloni, esse percentual caiu para 19% em 2022 e 15,9% em 2023.

Outro ponto delicado é a baixa presença dos serviços públicos. Apenas 8% dos assistidos pela Caritas estão em acompanhamento pelos serviços públicos. Para a entidade, o número é baixo demais, especialmente porque muitas dessas pessoas enfrentam problemas complexos ao mesmo tempo: renda insuficiente, moradia instável, questões de saúde, solidão e fragilidade familiar.

A Caritas defende, por isso, uma integração maior entre políticas sociais, sanitárias e habitacionais. O problema não é apenas falta de dinheiro. Em muitos casos, trata-se de uma combinação de dificuldades que se reforçam mutuamente.

Italianos, estrangeiros e diferenças regionais

Os estrangeiros continuam sendo a maioria entre as pessoas acompanhadas pela Caritas, 56,7% do total. Os italianos representam 41,6%. Mas a distribuição muda bastante conforme a região.

No Norte e no Centro da Itália, prevalecem os estrangeiros entre os assistidos. Já no Mezzogiorno, a componente italiana se torna majoritária: 62% no Sul e 65,4% nas Ilhas.

Entre os estrangeiros, também cresce a parcela de pessoas sem permesso di soggiorno. Em 2025, esse grupo chegou a 21,9%. Essa condição administrativa aumenta ainda mais a vulnerabilidade, porque dificulta o acesso a trabalho regular, moradia, serviços e percursos de inclusão.

O relatório deixa claro que a pobreza acompanhada pela Caritas é cada vez mais multidimensional. Quase oito em cada dez assistidos, 78,1%, têm problemas econômicos. Mas 55,6% acumulam pelo menos dois tipos de necessidade, e 30,6% enfrentam três ou mais.

Renda, trabalho, casa, saúde, solidão e fragilidade familiar não são problemas separados. Para muitas pessoas, eles aparecem juntos. E é justamente isso que torna a saída da pobreza cada vez mais difícil.

Para quem acompanha o mercado de trabalho italiano, o dado central é direto: trabalhar continua sendo essencial, mas já não basta. Sem salários adequados, contratos estáveis, acesso à moradia e uma rede de proteção social mais eficiente, uma parte crescente da população continua vulnerável mesmo estando empregada.


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