A proposta de criar um hub europeu de inteligência artificial, com sede na Itália, ganhou força em Roma durante um encontro realizado em 26 de fevereiro de 2026 na Accademia Nazionale dei Lincei.
A ideia é simples e ambiciosa: montar para a União Europeia algo “no modelo do CERN”, capaz de coordenar pesquisa, infraestrutura e investimentos em IA, para que o continente não fique refém da disputa entre Estados Unidos e China e nem do domínio de poucas big techs.
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Itália se posiciona como peça central do hub europeu
O encontro reuniu do Nobel de Física ao ex-diretor do CERN. Para começar, Roberto Antonelli, presidente da Accademia Nazionale dei Lincei, e Carlo Doglioni, vice-presidente da instituição, fizeram a abertura do evento. Em seguida, houve uma mesa-redonda com Pierluigi Contucci, Stefano Leonardi, Luciano Maiani, Marc Mézard e Giorgio Parisi. A ministra da Universidade e da Pesquisa, Anna Maria Bernini, encerrou o encontro.
Segundo o que foi discutido no encontro, a ministra italiana da Universidade e Pesquisa, Anna Maria Bernini, afirmou que o governo quer levar a proposta ao Conselho da União Europeia e se colocar como “parceiro fundador” da iniciativa.
O projeto também tem o apoio do físico Giorgio Parisi, Nobel de Física, que diz que “Roma e a Itália têm os números” e que o país estaria em um nível avançado na pesquisa.
O ponto mais urgente, na visão de Parisi, é o tempo. Ele defende que o centro precisa sair do papel até o verão europeu de 2026, porque a concorrência com EUA e China é “implacável”. A mensagem é clara: se a Europa continuar discutindo mais do que executando, a distância tecnológica só vai aumentar.
Uma rede de laboratórios e supercomputadores para virar plataforma pública
O plano apresentado aponta para uma solução prática: em vez de começar do zero, a Itália propõe integrar uma rede de laboratórios e supercomputadores já existentes, do Norte ao Sul do país, citando estruturas como Megaride (Nápoles) e Leonardo (Bolonha).

Paralelamente, Roma aparece como possibilidade de sediar um centro físico de coordenação.
A intenção, defendida por Parisi, pelo professor Pierluigi Contucci (Universidade de Bolonha) e pelo presidente da Accademia dei Lincei, Roberto Antonelli, é fazer uma rede de talentos e investimentos europeus em uma plataforma pública.
Na prática, isso significa organizar esforços hoje dispersos para produzir bases de dados e códigos avançados abertos ao público, com objetivo de desenvolver uma IA mais precisa, mais inteligente e mais ética, alinhada aos valores europeus.
Rumo da ciência: estamos indo para a direção certa?
Um dos trechos mais políticos do texto é a crítica ao que Parisi chama de “monopólio de fato” na pesquisa em IA, com referência a Google e também à OpenAI.
A preocupação não é só com competição de mercado, mas com o rumo da ciência: pesquisa cada vez mais privada, fechada por segredo industrial, e menos acessível ao ecossistema acadêmico e às startups.
Ao mesmo tempo, o texto reconhece um elefante na sala: o abismo de investimentos. Ele cita números muito altos de investimento privado nos EUA (mais de 400 bilhões) e aporte estatal na China (mais de 100 bilhões), considerados praticamente inalcançáveis.
A aposta europeia, segundo Parisi, seria no “capital humano” e em investimentos mais focados, capazes de sustentar infraestrutura e atrair talentos.
Do lado italiano, aparece uma fragilidade concreta: dos 1,5 bilhão previstos pelo governo, principalmente para serem operacionalizados via Cassa depositi e prestiti Venture Capital com apoio de privados, apenas “as primeiras centenas de milhões” teriam chegado às startups.
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Próximos passos: mandato político europeu e soberania tecnológica
Bernini sustenta que, se a Europa agir em conjunto, os investimentos podem se tornar “muito mais importantes”. O objetivo estratégico é de fortalecer a soberania tecnológica europeia. Não apenas acompanhar a IA como “revolução industrial”, mas tentar guiá-la.
O caminho proposto passa por um mandato político claro no âmbito europeu, via conclusões do Conselho sobre a iniciativa, e por um compromisso de longo prazo.

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