Quem quer dinheiro?

A gente acorda de manhã e sai para trabalhar para ganhar dinheiro. O sucesso para muitas pessoas é estar rodeado por dinheiro. Jogamos na loteria para ganhar dinheiro. Queremos dinheiro. Muito dinheiro. Dinheiro até não acabar mais.

Parece incrível mas existiu uma época em que o ser humano não usava dinheiro nas trocas “comerciais”. Quem conta muito bem essa passagem é o meu escritor favorito Yuval Noah Harari no seu livro Sapiens – Uma breve história da Humanidade, mais especificamente no capítulo 6 dedicado ao dinheiro.

Seria impossível resumir todo o seu livro – ou mesmo apenas o capítulo 6 – em um artigo de blog mas praticamente ele explica que o dinheiro foi inventado muitas vezes em lugares diferentes e que se tratava basicamente de uma revolução mental.

Isso porque o dinheiro não significa exatamente moedas e notas, mas pode ser qualquer coisa que as pessoas estejam dispostas a usar para representar o valor de outros objetos com o objetivo de trocar bens e serviços.

Harari explica que o dinheiro permite as pessoas de confrontar rapidamente o valor de produtos diferentes (como maçãs, sapatos e divórcios), de trocar rapidamente uma coisa por outra e de acumular riqueza de forma prática.

Existem diversos tipos de dinheiro. O mais familiar é a moeda, que é um pedaço de metal com uma impressão em cima. Mas o dinheiro existe muito antes da moeda ser inventada e muitos povos prosperaram usando outro tipo de “moeda” como conchinhas, sal, grãos, colares, tecidos…

Em tempos modernos, nos presídios, geralmente o cigarro substitui o valor o dinheiro. Mesmo os prisioneiros que não fumam começaram a aceitar o cigarro como forma de pagamento, habituando-se a calcular o valor de outros bens e serviços em termos de cigarros.

Harari continua sua explicação até chegar nos dias de hoje. Ele diz que mesmo hoje as moedas e notas são uma forma rara de dinheiro. A soma total de dinheiro no mundo está em torno de 60 trilhões de dólares, mas a soma total das moedas e notas em circulação não chega a 6 trilhões de dólares (ele dá essa informação baseado no livro de Niall Ferguson, A Ascensão do Dinheiro). Ou seja: mais de 90% de todo o dinheiro – mais de 50 trilhões de dólares que estão nas nossas contas correntes existem apenas nos servidores de computadores.

Isso significa que a maior parte das transações comerciais é realizada transferindo dados eletrônicos de um computador para outro, sem nenhuma necessidade de “tocar” o dinheiro.

Cada um de nós deseja o dinheiro porque também todos os outros o querem: isso significa que é possível trocar dinheiro por qualquer coisa que você queira ou precise.

O tipo ideal de dinheiro permite não apenas trocar uma coisa por outra mas também de acumular riqueza. Muitas mercadorias preciosas não podem ser acumuladas como por exemplo o tempo ou a beleza. E certas coisas podem ser acumuladas apenas por um breve período de tempo como morangos. Outras são mais duráveis mas requerem muito espaço, máquinas, atenção. O grão, por exemplo, pode ser armazenado por alguns anos, mas para isso é necessário construir enormes depósitos e protegê-lo de ratos, mofo, água, fogo, ladrões. Já o dinheiro, seja ele em forma de papel, de bit de computadores ou conchinhas de ciprea – resolve todos esses problemas porque não apodrecem, não podem ser comidos por ratos, podem resistir ao moho e são pequenos o suficiente para serem guardados em um cofre.

Além disso, para poder usufruir de um patrimônio, não é suficiente armazená-lo. Muitas vezes é necessário transportá-lo de um lugar para o outro. Algumas formas de riqueza como as propriedades imobiliárias não podem ser transportadas. Imagine um próspero agricultor que, vivendo em um lugar onde não existe o dinheiro, decida de mudar para uma cidade distante. A sua riqueza consiste especialmente na sua casa e nos seu terreno, sementes e produtos de produção – bens que não pode transportar. Poderia por exemplo transportar algumas toneladas de arroz, mas depois transportar esse arroz seria difícil e caro. O dinheiro serve a resolver todos esses problemas..

O dinheiro se baseia em dois princípios universais:
1 – conversão universal: é possível trocar o dinheiro por qualquer coisa,
2 – crença universal: com o dinheiro duas pessoas desconhecidas podem cooperar em qualquer projeto.

O paradoxo é que se o dinheiro foi criado para facilitar a cooperação com desconhecidos existe ao mesmo tempo o medo que ele possa corromper valores humanos e relações humanas, criando um preço para coisas que não deveriam ter preço como honra, lealdade, moralidade e amor.

Por hoje é tudo. Se você quer saber mais, recomendo assistir a entrevista do Roda Viva com Yuval Noah Harari:


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